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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Ousadias numa Carta de Amor..

Sérgio Godinho - "Às vezes o Amor"


Lá fora, a janela mostra-nos a neblina, desenhando um tom misterioso na paisagem. Sinais de um amanhecer imprevisível.
Cá dentro, no quarto, escondida pelo aconchego do edredão, o clima parece ameno. Voltou a relê-la, a inalar-lhe o perfume, enquanto trincava um “after eight”. Repetiu o mesmo gesto, vezes sem conta. Achava-a patética, pirosa, fora de moda. Tem tudo a ver com o que pretende transmitir. Não é possível acrescentar uma única vírgula ou suspiro.
Vestígios dele? Depois dos dois olhares se terem cruzado à entrada do liceu, ficou desarrumada por dentro. Sentia-se tonta, perdida, sem rumo, e adorava aquele estado de embriaguez, longe dela própria. Tornou-se uma espectadora atenta dos seus pequenos gestos quotidianos. De longe, tentava adivinhar-lhe os pensamentos. Visitar os lugares secretos. Ficou amiga do seu melhor amigo só para chegar mais perto. Não queria ser previsível e enviar-lhe um e-mail ou sms. Isso estava ao alcance do “comum dos mortais". Desejava ir mais longe e surpreendê-lo em formato cor-de-rosa. Numa folha de papel escrita à mão. Poderia achá-la louca, imbecil, mas de certeza que não conseguiria ficar indiferente. Ganhava coragem para concretizar o seu objectivo e coloca-la no correio…
Mirou-se ao espelho, meio ensonada. As boxers vermelhas e o top branco não estavam lá. O seu corpo tinha desaparecido. Só revia a imagem dele. “Meu Deus!” Pensou. “Ele tomou mesmo conta de mim e dos meus domínios”.
Conseguiu finalmente relaxar ao som de Sérgio Godinho com “Às vezes o Amor”, imersa na espuma doce e alva de um banho de imersão. E se não resultasse? Restava-lhe refugiar-se na sua caixa de mímica imaginária, sem palavras. Saiu da banheira e envolveu-se no turco azulão. Ainda precisava de um selo e tinha de descobrir um marco do correio.
Sim. Era apenas uma carta de amor. Tão ridícula como qualquer outra. Porém, será que hoje ainda alguém se atreve a escrever?..

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

À Deriva...



“Perfeito!” Sentia-se uma diva naquele vestido preto. Espalhou algumas gotas de perfume, cuidadosamente, por detrás das orelhas e no pescoço. Ia calçar as sandálias prateadas (oxalá o verniz já estivesse seco), quando…
“O meu brinco, falta-me um brinco!” Nesse momento soou a campainha. “Não pode ser. Deus não existe!” Já estava um pouco atrasada e aquele jantar era demasiado importante. Finalmente, Ele tinha-a convidado. Teria de “voar” até ao restaurante.
Outra vez. Aquele som inoportuno estava a deixa-la louca. Conhecia o toque, era-lhe familiar. Pertencia à vizinha de cima, uma “solteirona incorrigível”, famosa pelas suas histórias fantásticas, intermináveis e cheias de pormenores. Deveria ter alguma recente e andava à procura de mais uma “vítima” com quem a partilhar (provavelmente já a tinha repetido dezenas de vezes). Insistia. Que falta de bom senso! Matilde tinha dificuldade em dizer “não”, apesar de saber que em muitos casos temos de dizer não aos outros para dizer sim a nós próprios. Tinha parado. Espreitou pelo buraco da fechadura. Continuava lá, especada, com aquele ar tristonho de “cãozinho abandonado”. Talvez à espera de um milagre. Não lhe queria mal. Era apenas uma pessoa solitária a precisar de mimos em jeito de conversa, alguém que lhe desse “colo”. Não conseguia ficar indiferente.
Precisava de sair, mas como? Ligou, porém Ele não atendia. Deixou-lhe um sms onde dizia “Aconteceu um imprevisto. Chego mais tarde. Por favor, não te vás embora. Beijos”. Se calhar, estava zangado e nem lhe queria falar. Já passava bastante da hora combinada, muito mesmo. Olhou de novo lá para fora. Finalmente, o caminho estava livre. Respirou fundo. Reparou no brinco que lhe faltava, caído, perto do espelho. Talvez, Ele ainda estivesse lá… Porém, quando abriu a porta, hesitou. Ficou ali alguns instantes parada, sem reacção, meio tonta. Depois, desceu com vontade de subir.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Ladrões de Vivências


O meu primeiro conto on line...

Devia ter ido à aula de yoga. Neste momento estava a sentir falta dos exercícios de respiração. Voltou a poisar os olhos no pacote desembrulhado. “É difícil acreditar que isto está mesmo a acontecer comigo!” Com dedicatória e tudo, não deixava margem para dúvidas. Voltou a folheá-lo lentamente, página a página.
Afundou-se no puff verde bandeira salpicado de malmequeres, e decidiu fumar um cigarro. As mãos estavam tão trémulas que suspeitou que não iria conseguir usar o isqueiro. Nem fazia ideia do seu paradeiro, já não o utilizava “há séculos”. A verdade é que tinha decidido parar com este vício perfeitamente dispensável! Abriu a janela de par em par e soube-lhe bem sentir a brisa matinal. Nenhuma mudança digna de registo desde a noite anterior. As mesmas cores neutras de Outono, os odores característicos, o ruído citadino. De súbito, uma chuva miudinha obrigou-a a fechá-la, num gesto contrariado.
Focou a sua atenção nos peixes do aquário, que pareciam estar a dançar uma valsa. Tentou organizar as ideias, as quais se baralhavam num amontoado sem sentido, na sua cabeça. “Usou-me assim sem mais nem menos!” Recordou a amizade cheia de cumplicidades entre as duas. As conversas amenas que se prolongavam pela noite dentro, a troca de confidências, segredos comprometedores. A sua existência estava agora reduzida a um romance “light”, de quinta categoria. Manipulado, levado ao excesso de forma a aumentar o presumível interesse do leitor, e o volume de vendas!?Best-seller??? Tinha sérias dúvidas acerca da veracidade desta afirmação, que a deixou assustada. Os palavrões que conhecia, e não tinha por hábito dizer, pareciam-lhe insuficientes para a classificar. Sabia que M.... (não estava sequer com coragem para pronunciar o seu nome) sempre sonhara escrever um livro. Pelos vistos tinha encontrado um enredo à sua medida, o facto de o ter “roubado”, pouco importava neste caso, “não olhar a meios para atingir os fins”. A pergunta continuava a pairar, transformando-se num denso nevoeiro. “Ia ou não à noite de lançamento, marcada para hoje?” Mostrar-se-ia deslumbrante e contente pelo sucesso de M.... Uma cena teatral da vida privada, acompanhada de sorrisos cínicos e abraços forçados. Talvez... De repente surgiu-lhe uma ideia luminosa, e sentiu-se mais confiante. “A vingança serve-se fria e com todos os requintes de malvadez.” Desta vez a grande estreia seria a sua, no papel de “má da fita”.