Lá fora, a janela mostra-nos a neblina, desenhando um tom misterioso na paisagem. Sinais de um amanhecer imprevisível.
Cá dentro, no quarto, escondida pelo aconchego do edredão, o clima parece ameno. Voltou a relê-la, a inalar-lhe o perfume, enquanto trincava um “after eight”. Repetiu o mesmo gesto, vezes sem conta. Achava-a patética, pirosa, fora de moda. Tem tudo a ver com o que pretende transmitir. Não é possível acrescentar uma única vírgula ou suspiro. Vestígios dele? Depois dos dois olhares se terem cruzado à entrada do liceu, ficou desarrumada por dentro. Sentia-se tonta, perdida, sem rumo, e adorava aquele estado de embriaguez, longe dela própria. Tornou-se uma espectadora atenta dos seus pequenos gestos quotidianos. De longe, tentava adivinhar-lhe os pensamentos. Visitar os lugares secretos. Ficou amiga do seu melhor amigo só para chegar mais perto. Não queria ser previsível e enviar-lhe um e-mail ou sms. Isso estava ao alcance do “comum dos mortais". Desejava ir mais longe e surpreendê-lo em formato cor-de-rosa. Numa folha de papel escrita à mão. Poderia achá-la louca, imbecil, mas de certeza que não conseguiria ficar indiferente. Ganhava coragem para concretizar o seu objectivo e coloca-la no correio…

Mirou-se ao espelho, meio ensonada. As boxers vermelhas e o top branco não estavam lá. O seu corpo tinha desaparecido. Só revia a imagem dele. “Meu Deus!” Pensou. “Ele tomou mesmo conta de mim e dos meus domínios”.
Conseguiu finalmente relaxar ao som de Sérgio Godinho com “Às vezes o Amor”, imersa na espuma doce e alva de um banho de imersão. E se não resultasse? Restava-lhe refugiar-se na sua caixa de mímica imaginária, sem palavras. Saiu da banheira e envolveu-se no turco azulão. Ainda precisava de um selo e tinha de descobrir um marco do correio.
Sim. Era apenas uma carta de amor. Tão ridícula como qualquer outra. Porém, será que hoje ainda alguém se atreve a escrever?..

