terça-feira, 15 de julho de 2008

Só para vocês...

Eis a minha forma de vos desejar um doce início de semana...
Porque não dar uma oportunidade à música e deixar o que os olhos passeiem pela paisagem?
Aproveitem bem este momento!

sexta-feira, 11 de julho de 2008

José Fanha



Nós nascemos para ter asas meus amigos.

Não se esqueçam de escrever por dentro do peito: nós nascemos para ter asas.

No entanto, em épocas remotas vieram com dedos pesados de ferrugem para gastar as nossas asas assim como se gastam tostões.

Cortaram-nos as asas como se fôssemos apenas operários obedientes, estudantes atenciosos, leitores ingénuos de notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.

Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas transparentes, afirmam que as asas dos homens crescem mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas de novo voltam a ser.

Aceitemos essa hipótese, apesar de não termos dela qualquer confirmação prática.

Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair.


José Fanha, 1985, Cartas de Marear

terça-feira, 8 de julho de 2008

Look at me... please


Ficar invisível... mesmo que por breves instantes Penso que todos já desejámos ter super-poderes e encarnar os super-heróis da infância em aventuras extraordinárias. Sonhando, talvez...

Na realidade, na maioria das vezes queremos estar bem visíveis para os outros, em especial para determinadas pessoas! Precisa-se não somente que olhem com olhos de ver, mas sobretudo reparem. No penteado diferente, na lingerie mais ousada, nas pequenas-grandes mudanças operadas no lar, em gestos que podem fazer a diferença.

E enganamo-nos a quando afirmamos que não tem importância aquele “desinteresse”, até é natural. Jogamos ao “faz de conta” no sentido de nos protegermos de um imenso “balde de água fria”.

Noutras alturas ansiamos por um bom ouvinte Alguém que não ouça simplesmente, mas escute entrando no nosso Mundo interior. O ser humano comum limita-se a ouvir o eco da sua voz vezes sem conta, rodopiando nos seus pensamentos e “dramas diários”. Julga que é suficiente a presença física aliada a alguma representação.

Em raríssimos momentos de magia, desliga-se do seu Eu, parte à descoberta e...consegue Partilhar!

É pedir muito prolongar as alturas em que fluem boas energias, tentando multiplicá-las? Só um pequeníssimo esforço... e a recompensa é garantida...

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Em todas as ruas te encontro...



Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco



Mário Cesariny

Com o Mar...




Com o mar
as curvas das ondas
e o dorso de um peixe ao luar
fiz uma deusa
que criou o mar.

(E depois deitei-me ao comprido
com o mistério resolvido.)



José Gomes Ferreira

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Histórias de princesas de hoje


"Era uma vez uma linda Princesa que vivia num castelo cor-de-rosa. Ficou conhecida pelo seu sorriso e alegria de viver, que contagiava todos à sua volta. Gostava de brincar e de se divertir.
Certo dia, porém, a Princesa ficou doente. Ninguém sabia o que fazer porque não é comum que tal aconteça nos contos de fada. Começou a fazer tratamentos e a tomar muitos remédios para ficar boa. E a pouco e pouco deixou de sorrir. Só queria ficar quietinha e chorava muitas vezes porque tinha dores. Todos os habitantes do Reino ficaram tristes, e até o sol deixou de ter forças para brilhar. Era sempre noite e estava escuro…
Mas, passado algum tempo ficou bem. Para isso contou com muita força de vontade da sua parte, a ajuda da família, amigos e o apoio da Rainha-mãe, a qual estava sempre ao seu lado a dar-lhe colo e mimos. Recuperou o sorriso bonito que a caracterizava. E o sol voltou a brilhar! Fez-se uma grande festa durante dias e dias, convidaram gente dos quatro cantos do Mundo. Houve imensas danças e cantares alegres."


A “Prisca” não é uma princesa. É apenas mais uma das inúmeras crianças que está na Casa da Acreditar. Para a mãe Catarina e todos aqueles que a amam é especial, sem dúvida! Também já tem um lugar no meu coração. É impossível não gostar dela.
Esta curta história que inventei é a minha forma de lhe enviar uma mensagem de fé e esperança, apesar de ela ser demasiado pequena para compreender.
Alargo-a a todas as meninas, meninos e pais que passam ou já passaram pelo enorme desafio de enfrentar uma adversidade chamada “cancro”. Coragem e força, sobretudo nunca desistam. É uma fase menos boa do longo percurso da vida, mas vai passar. Estou certa disso. Se precisarem de mim vou estando por perto…

Um beijo grande e solidário,

terça-feira, 1 de julho de 2008

Encontro adiado



Escrevi este conto que partilho convosco...

Soltou um suspiro de alívio. Tinha escapado por pouco a um terrível aguaceiro! Despiu a gabardina preta, e desvendou a silhueta feminina no vestido justo.
Escolhe uma mesa perto da janela de modo a observar o que se passa lá fora e espreita as gotas, pingos de chuva que não pára de cair. Imagina a expressão das pessoas debaixo dos chapéus. Desiludida, alegre, sonhadora? Quase ouve o barulho do vento e dos passos apressados quando encontram pequenas poças de água. As buzinas dos carros irritados com o trânsito. Uma tarde agitada também por causa do temporal…
“Não vou pedir já. Estou à espera de uma pessoa”. Esboçou um sorriso tímido, pouco convincente.
Dentro de si, as nuvens cinzentas parecem querer tapar o pouco sol que lhe resta.
O telemóvel, em silêncio, mostra as horas. Poderia experimentar ligar-lhe mas iria apenas demonstrar a insegurança que sentia. E depois, atendendo ou não, estava certa que só ficaria ainda mais magoada. E se estivesse desligado?
Tirou um livro da mala vermelha, embora soubesse que naquele momento este serviria apenas como um mero acessório. “Como o acaso comanda as nossas vidas” de Stefan Klein. Pensou na presente situação. Será que corresponde mesmo à verdade?
Se calhar era boa ideia pedir alguma coisa. “Uma torrada e um chá de maçã canela, por favor”. Bebeu um gole do chá e trincou o pão.
Esta espera, e a sua incapacidade de tomar uma atitude ou decisão estavam a deixá-la frágil e vulnerável. Como se o Mundo tivesse parado ou se virasse contra ela. Limpou a lágrima que lhe rolava pelo rosto.
Procura estar atenta aos outros clientes. Por detrás da aparência o que poderá ser revelado? Ao fundo, um grupo de adolescentes parece hilariante, com imensas histórias loucas para contar. Falam todos ao mesmo tempo, sem facilitar o diálogo. De repente, levantam-se e saem. A casa de chá começa a ficar deserta. Parece que só resta mesmo ela!
“Desculpe, mas vamos ter de fechar. Está tudo bem consigo?”
“Sim, claro, estava distraída! As minhas desculpas”
Abriu a porta, olhando o anoitecer. Pelo menos a chuva tinha parado e havia uma nesga de azul.